Lugar de mulher é no track: como o feminismo e o roller derby patinam juntos!

[Estamos retomando aqui alguns textos escritos pelas gralhas! Esse é da nossa querida Jams Joyce, escrito para a série de postagens que fizemos para o 8 de março de 2015 🙂  ]

 

Quando fundamos as Blue Jay Rollers, em 2011, praticávamos patinação numa quadra pública, administrada pela Secretaria de Esporte e Lazer da cidade, com horário marcado. Começamos a treinar em poucas pessoas, cerca de cinco ou seis mulheres entre 20 e 30 anos, sempre animadas, fizesse chuva ou sol, esperando chegar o momento de colocar os patins e praticar nossos primeiros passinhos tortos em direção ao roller derby. Um treino que ocorreu nessa época me marcou até hoje.

Ao chegarmos na quadra, reparamos que um time de futebol masculino que treinava no horário anterior se encontrava disposto nos bancos que circundavam a quadra em posição de expectadores. Mal começou o nosso treino e o desrespeito correu solto: os rapazes chutavam a bola para a quadra sem se importar se poderia bater nos patins de alguém, passavam cantadas indesejadas (“ei loirinha, ei gostosa!”), interrompiam nosso treinamento com suas gracinhas e ainda questionaram nosso direito a usar a quadra por sermos poucas e estarmos de patins. Lembro que acionamos a Guarda Municipal, que tem seu postinho no local, mas pouca coisa ou nada foi resolvido. Tentamos dialogar com os rapazes, e novamente nada foi resolvido. Lembro que acabamos nos alterando com todo aquele desrespeito, aquela interação objetificante que sofremos, os comentários que nos desumanizaram, nos transformaram em meros pedaços de carne, sem direito ao compartilhamento do espaço publico, sem direito de praticar nosso esporte. Foi a primeira vez que eu berrei com um desconhecido em público. Essa cena se repetiu inúmeras vezes mais tarde com o nosso time. Resolvemos assumir uma posição combativa frente àquela censura às nossas liberdades enquanto seres humanos e continuamos nos defendendo.

A cultura massificada difundida na nossa sociedade vende uma ideia de feminilidade que exclui a mulher de espaços de convivência e práticas esportivas (consideradas “coisa de homem”). O ideal de mulher caseira, abnegada, dedicada exclusivamente a atividades tomadas socialmente por “ intrinsecamente femininas” como cuidar da própria aparência, da casa, do marido e dos filhos ainda está presente no modo como nosso gênero é visto, retratado, e por consequência, nos influencia. Um estudo realizado recentemente na pós-graduação da Universidade Católica do Paraná com 1600 estudantes concluiu que apenas 9% das meninas adolescentes praticavam atividades físicas suficientes para manutenção da saúde, em contraste com 22% dos meninos. Já outro estudo recente, realizado pela Escola de Saúde Pública de Harvard sobre masculinidade e feminilidade, com a participação de 9.435 adolescentes, aponta que as meninas que se acreditavam mais femininas eram 16% menos dispostas a participar de atividades físicas do que as demais.

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Blue Jay Rollers na Marcha das Vadias Curitiba 2012 – Foto: Nathalia Tereza

Mas que noção restrita de feminilidade é esta cuja influência, querendo ou não, os pesquisadores das universidades estão demonstrando com todos esses estudos? Será que “ser mulher” precisa partir de um conceito tão limitador, tão excludente? Só existe uma forma correta de “ser feminina”, de ser mulher em sua plenitude? Nós do roller derby acreditamos que NÃO!

Nós sabemos que nossa liberdade de praticar um esporte de contato mesmo sendo “mocinhas” e nossa vontade de ir além das noções preconcebidas de feminilidade podem assustar aqueles que não vêem com bons olhos os avanços das mulheres em direção aos tão sonhados direitos iguais. Mas tanto na nossa luta quanto nos nossos treinos existe a ideia de perseverança acima de tudo. Não foi hoje que aprenderam a nos respeitar? Não desistiremos, amanhã pode muito bem ser o dia. Não aprendi a me recuperar corretamente de um hit, ou um knee slide hoje? Se eu não desistir, amanhã pode muito bem ser o dia!

O feminismo e o roller derby têm muito em comum e patinam juntos, pois nos proporcionam ferramentas de auto superação, trazem a ideia de comunidade e cooperação entre mulheres, e nos incitam a ser nossas próprias heroínas, ao invés de nos conformar em ser as donzelas em perigo da história de nossas vidas.

 

Jams Joyce #19

 

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Blue Jay Rollers na Marcha das Vadias Curitiba 2012 – Foto: Nathalia Tereza

 

 

 

Referências:

http://www.papodegordo.com.br/2010/06/11/meninas-percebem-mais-barreiras-para-a-pratica-de-atividade-fisica/

http://www2.uol.com.br/vivermente/noticias/estudo_relaciona_estereotipos_de_genero_a_comportamentos_de_risco_para_cancer.html

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